Personalidades do teatro brasileiro
A irreverência política de Ary Toledo
Rosa Minine
Ary foi aconselhado por
Vinícius de Moraes e Elis Regina a seguir a carreira de
humorista. Grande ator (cantor, compositor e teatrólogo, sim
senhor), ele tinha feito um enorme sucesso na década de 60
cantando Pau-de-Arara, que conta a vida dura de um
retirante nordestino no Rio de Janeiro. O personagem comia
lâminas de aço, cacos de vidros etc, em praça pública para
sobreviver. O retirante, portanto, não era engraçado, mas
exatamente ridículo é o modo de vida que se impõe ao povo, a
reprodução da fartura para uns poucos e da miséria para mi lhões.
Ary Christoni de Toledo, como ninguém, soube retratar isso. Mas
Ary fez (e pode fazer) muito mais. Hoje, completando 40 anos de
carreira, ele percorre com o show A Todo Vapor os
teatros municipais de São Paulo, levando ao povo seu humor
profundamente crítico.
Pau de de Arara,
também conhecida por muitos como Comedor de gilete -
por conta da história contada por Ary no meio da música-, foi
composta por Carlos Lyra, com versos de Vinícius, para a peça
Pobre Menina Rica, depois gravada por
vários intérpretes: Catulo de Paula, Moura Neto, Renato Aragão
entre outros, mas nenhum deles conseguiu arrancar uma
interpretação tão humana para essa música que se tornou um
imenso sucesso, com muitos discos vendidos, abrindo as portas
para Ary no cenário artístico nacional e internacional.
Ary Toledo começou sua carreira artística em
1961, como ator do destacado Teatro de Arena, de São Paulo, um
marco do teatro brasileiro.
O Arena despontava como um valoroso núcleo de
pesquisa em teatro, uma proposta nova, democrática, trabalho
sério. Entre o repertório do Arena estavam dramas e comédias de
maior valor político, popular, democrático, evidenciando
inclusive excelentes autores nacionais, inteligentes e
profundamente críticos. Ary achou que ali era o lugar ideal para
mostrar seu talento nato de ator que, ainda não sabia, era muito
maior. E, assim, chegou ao Arena para pedir emprego:
- Cheguei diante do Augusto Boal (um dos
diretores do Arena), que estava na porta do teatro com Milton
Gonçalves e o Flávio Migliaccio, e falei: 'Olha, eu sou um bom
ator. Quero ser contratado pelo Teatro de Arena'. O Boal então
disse: " Nós estamos precisando é de um faxineiro, serve?"
- Eu respondi: ha, ha, ha, ha. Aceito! Ele
gostou do jeito que eu falei e me deu o emprego de faxineiro,
mas depois de uma semana eu estava no palco - conta Ary.
- Na época, o Arena estava ensaiando o
musical Revolução na América do Sul,
do Boal, e como também sou músico, toco violão, ajudei o elenco
nesta parte. Eles, então, falaram para o Boal que seria um
desperdício me deixar fazendo faxina no teatro. Mas eu não me
arrependo e nem me envergonho de ter feito a faxina, inclusive,
quero deixar claro, que fiz direitinho. Tão bem como faço hoje
os meus espetáculos. Lavei privada direitinho (risos).
Ary trabalhou por cinco anos no Arena, depois
se mudou para o Rio de Janeiro para remontar o musical
Pobre Menina Rica, sem imaginar que iniciava
também sua carreira de humorista.
- Pobre Menina Rica
estreou no teatro Maison de France, no centro do Rio, e ficou em
cartaz por cerca um ano. No elenco original estavam Nara Leão,
Zé Keti, Carlos Lyra, enfim, grande nomes. No ano seguinte,
outra remontagem, com outro elenco. Depois disso, eu fiz uma
remontagem da peça, interpretando o Pau-de-Arara
- conta.
- O detalhe é que essa música, na verdade,
não é para rir e sim para chorar, porque fala da vida dura do
nordestino que deixa a sua terra natal e vai para a cidade
grande buscando uma vida melhor, mas o que consegue é passar
fome. E para não morrer de fome, ele come gilete, caco de vidro,
'corre o chapéu' e as pessoas ficam olhando. Enfim, é algo muito
triste. Para fazer Pau-de-Arara, o
Vinícius se inspirou em um tipo que viu em Copacabana - diz.
- Eu pedi para o Vinícius e o Lyra: "me deixa
gravar do meu jeito", e eles concordaram. Depois, no teatro,
encontrei com o Vinícius e ele me disse que estava
impressionado. Falou que eu deveria fazer humor mesmo. Eu lhe
disse: "Olha poeta, eu não tive nenhuma intenção de
'esculhambar' a música, fazer gozação ou coisa assim".(risos)
Mas ele havia entendido, claro - continua.
Assim, Ary transformou a música numa grande
sátira política.
Outra a incentivá-lo foi a cantora Elis
Regina, que também foi sua amiga. Na época, Elis tinha um
programa de música na televisão e o levou para cantar.
- A Elis me disse que fazer o público sentir
essa música da gilete era a maior prova de que eu era um artista
de verdade. Eu até poderia seguir cantando, ela disse, mas que
não deixasse de fazer sátira, porque disso o público precisava e
eu sabia fazer - lembra.
- Eu acredito que fui testado no humor com
essa música - constata.
Sátiras políticas e
prisões
Sua primeira composição registrada acontece
em 1965, com a gravação de Tiradentes,
em disco lançado pela RGE-Fermata, que se tornou um de seus
maiores sucessos. Entre 1965 e 1967, participou de vários
programas musicais da TV Record (SP).
Depois de Pau de de Arara,
Ary passou a gravar músicas com sátiras políticas, como
A Canção do Subdesenvolvido, e
Descobrimento do Brasil. A sátira política, se
tornara a sua especialidade. Em plena ditadura, fez o espetáculo
A criação do mundo segundo
Ary Toledo, escrito por Gianfrancesco Guarnieri e
Augusto Boal.
- Foi o maior sucesso. Eu cantava cerca de
dezesseis músicas de sátira política, e tinham umas piadas no
meio para moldar o espetáculo. E por causa disso eu fui chamado
muitas vezes para prestar depoimento. Recebi o 'dedo no nariz' e
fui preso várias vezes. Só não fui torturado. Mas me orgulho
dessas prisões, porque para mim, todo humorista que se preze
deve ser preso pela censura do sistema ou ter problemas com ela
- conta.
Nas histórias que contava, ele expunha a
essência da situação em que o país vivia, com repressão e
tortura para quem se rebelasse contra o sistema, mas sempre
envolvendo militares, com denúncias diversas. Algumas, bem
graves e outras nem tanto, mas ambas tinham o objetivo de expor
o ridículo do Estado e das forças armadas sempre que, ao invés
de defender o povo, os oprime. Algumas, sem necessidade de
encenações, mais leves e fáceis de contar:
- Não sei se todo mundo sabe, mas quem tem
certos defeitos físicos, entre eles está o 'pé chato', não pode
prestar serviço militar. Então, durante um espetáculo, certa
vez, comecei a conversar com o público e disse: A minha mãe
queria que eu fosse presidente da República. E eu disse para
ela: "Mamãe, esqueça. A senhora não sabe que eu tenho pé
chato?". Todo mundo riu. Só por isso, mais nada (!), fui levado
para depor - conta Ary.
- Outra assim? Já durante o Ato Institucional
número 5, em 1968, que permitia aos militares invadir as casas
das pessoas sem precisar de mandato judicial, arrombar a porta,
sequestrar etc., fui preso novamente, porque durante um show, no
Teatro de Arena, eu comentei com o povo: "Olha, o meu show está
terminando e só tem aqui o meu violão, o microfone e esses dois
refletores. Positivamente ele é subdesenvolvido, mas temos que
começar por baixo. Vocês sabem... como diz o ditado: quem não
tem cão caça com gato e quem não tem gato caça com ATO". O
público aplaudiu - continua.
- Mas havia dois policiais do SNI assistindo
ao show. O Arena era um grupo muito visado por resistir ao
sistema, assim como o Teatro Opinião no Rio. Quando terminou o
espetáculo, eles me arrancaram e levaram para prestar
esclarecimento na Polícia Federal. Para mim esse Ato
Institucional foi um dos mais ferozes instrumentos de violência
usados na época - acrescenta.
Ary conta que quando chegava diante dos
militares tinha que se explicar sobre o que falou, e geralmente
falava espontaneamente e se explicava corretamente, mas saindo
de lá, fazia tudo igual ou pior. Era a sua maneira de resistir.
- Eu costumava dizer: "Olha coronel, eu não
tive intenção de ofender as forças armadas. Saiu assim,
instintivamente. Não foi por mal". Mas botavam o dedo no meu
nariz e falavam sem parar. Na última vez que eu fui preso, por
exemplo, o coronel, que até tinha o meu disco do Comedor de
Gilete, me disse: "Olha Ary, isso aqui não é uma prisão, é um
convite para você prestar esclarecimentos". Eu respondi: Mas
coronel, convite a gente pode recusar! Ele deu uma risadinha -
lembra.
Humor como arma
Para Ary, o humor (verdadeiro) é muito visado
pelo Estado opressor do povo, porque é uma arma poderosa para
ridicularizá-lo e expor verdades que o mesmo poder quer ocultar.
Então, Ary se sente no dever de usar dessa arma contra os
vigaristas políticos e outros especialistas que, de alguma
forma, prejudicam o povo.
- Tenho que aproveitar cada fato novo no
cenário nacional e internacional. Para mim, o humor crítico é
uma das armas mais terríveis contra aquilo a que o ator se
propõe a lutar. O humor destrói coisas incríveis - diz.
- Na década de 60 a transnacional Wolkswagem
fabricava um fusca com uma abertura no teto, o teto solar. E
espalhou-se no meio do povo que aquele modelo era CC, "carro de
corno", com a abertura para refrescar o chifre. Só se falava
isso, até que a Wolks teve que tirar o modelo do mercado
-lembra.
Ary recorda o que Bertolt Brecht propôs com
seu teatro: o povo pensar, analisar a sua realidade e opressão;
a sociedade em que vive. Isso é fundamental no arsenal do humor
crítico.
- Além de representar, eu costumo conversar
com o público informalmente, descontraidamente, durante os
shows. Outro dia falei: "políticos são sempre os mesmos. E temos
que continuar aguentando, porque político faz uma safadeza e
depois é reeleito. Vocês sabem disso, conhecem o político. Têm
motivos de sobra para não votar neles. A solução seria um desses
políticos pegar febre aftosa. Vocês sabem, contaminou um, tem
que matar todos"(risos).
- Gosto de uma verdade dita de forma hilária.
Então o verdadeiro objetivo dos meus shows não é o riso pelo
riso, mas criticar toda uma sociedade. É fazer com que cada um
também pense através do humor, ou seja, pense sorrindo, e esse
meu objetivo é alcançado - sintetiza.
Ary Toledo, no entanto, conhece a psicologia
de seu povo. O humorista Ary lança mão de um tipo de recurso,
que é o próprio humor da sua gente. Esse tipo de arsenal de
sátiras políticas pode atingir os seus objetivos porque ele tem
um grande poder de síntese, não é superficial, mas capaz de
mostrar as origens e as causas sociais dos problemas. A sátira
política de Ary revela como o anti-povo, apesar da arrogância
que o caracteriza, está falido, se coloca na contra-mão da
história, é completamente caduco, burro, ridículo.
Na última vez que eu fui
preso o coronel me disse: “Olha Ary, isso aqui não é uma prisão,
é um convite para você prestar esclarecimentos”. Eu respondi:
Mas coronel, convite a gente pode recusar!
- Acredito que uma pessoa não precisa
necessariamente enxergar uma realidade dura e fria, através de
uma linguagem dura e fria. Esta linguagem deve existir, mas
também tem uma outra. No caso, a minha preferida - diz,
referindo-se à sua especialidade: a sátira.
A todo vapor
No momento, Ary Toledo está em cartaz com
A Todo Vapor, pelos teatros municipais da
periferia de São Paulo. E, como ele diz, seu show é uma
"bagunça bem organizada", porque é uma mistura de assuntos
atuais e temas preferidos do público de outros espetáculos.
- O espetáculo é bem heterogêneo, mas de uma
heterogeneidade muito agradável. Peguei temas como: política,
políticos, sogra, português (de anedota), crianças, "raças" e
mais outras coisas. E esses ingredientes aparecem mesclados com
músicas, textos, monólogos, frases de efeitos. Creio que
consegui um show excelente.
Suas explicações são ilustradas pelo disparo
ininterrupto de casos, em que, independente dos casos serem ou
não verídicos, as personalidades em questão correspondem
fielmente ao caráter de cada uma delas:
- Têm situações simples, do cotidiano. Por
exemplo, quando o Luiz Inácio foi ao Vaticano. Como foi à
tardinha, e tarde em italiano é 'sera', o papa passou por ele e
disse: "Buona sera". Ele respondeu: "A cera é boa, mas escorrega
muito, heim!'. Também, quando na Inglaterra, passeou com a
rainha em sua carruagem, Luiz Inácio perguntou: "Majestade, a
senhora é parente do Zé?" Ela disse: "Que Zé"? Ele respondeu:
"Pô! O Zé Rainha..." (risos).
- O médico deu vinte palmadas no bumbum do
Maluf quando ele nasceu. Então a enfermeira falou: "Doutor, o
senhor está machucando o bebê! Bastam três palmadinhas que ele
chora e libera o ar para o pulmão". O médico disse: "Claro que
eu sei! As outras dezessete foram para ele largar o meu
relógio"(risos).
Há monólogos que o público aplaude de pé,
histórias sobre o desmoralizado salário mínimo, que continua não
servindo para comprar uma cesta básica sequer; sobre a presença
do verdadeiro espírito brasileiro ou a criança que perdeu toda a
ingenuidade que a caracterizava nas décadas de 30, 40, e que
agora são crianças da Internet.
Ary diz estar muito feliz com esse show
porque em vários momentos o público aplaude em cena aberta. Vê o
público entender o seu trabalho, inteira e abertamente.
De fato, é inacreditável a ausência de espaço
para tudo o que de melhor representa o povo brasileiro. Dos
atores contratados para novelas de TV, ou os que aparecem amiúde
nos chamados "programas de auditório" etc., obrigados a dizer
tolices, pornografias, nem de longe se percebe o potencial
verdadeiro desses artistas. E depois de muito explorarem os
artistas, com programas tolos, medíocres, a TV os afasta por
meses e anos a fio. Os tais espaços televisivos, controlados,
bestificados, submersos na mediocridade, conseguem esmagar
inteiramente a arte, a criatividade, a competência e esgotam por
inteiro os artistas. Ao contrário, quando eles encontram, de
fato, um espaço onde é possível respirar um pouco mais de
liberdade para a sua atuação, o verdadeiro talento aflora e seu
trabalho se torna gratificante.
- O espetáculo também tem a participação das
pessoas, fazendo perguntas, porque gosto desse diálogo,
principalmente de brincar com o público, no que há uma grande
correspondência. Converso muito com o público depois do
espetáculo também, quando vou para o saguão do teatro para
autografar os CDs do show. Lembro: "Agora vou sair daqui e vou
lá para frente". Termino como falou o Francisco da piada do F,
que eu faço: "Vou lá na frente faturar o feijão dos filhos. Fãs
felizes e formidáveis, fiquem fiéis que eu ficarei feliz. Fui".
O público adora - conta.
- Durante o show, o pessoal é educado, não
fala nada. Mas, depois, comenta: "Ah, você não falou do fulano"
(risos) "Oh, Ary, gostei e tal.. ah, mas você deixou de falar
aquilo e tal". O espetáculo está sempre se renovando, de acordo
com os acontecimentos do cotidiano, porque se eu não fizer o
público cobra de mim. Para mim, é muito bom trocar idéia. Então
de acordo com o que fazem os políticos, pode crer que eu preparo
alguma coisa.
Ao encontro do povo
Ary conseguiu apresentar o seu show pelos
teatros municipais, da periferia de São Paulo, a um preço bem
popular: 10 e 5 reais (para quem tem carteira de estudantes e
para terceira idade), facilitando que o povo, que não dispõe de
acesso ao teatro, por não poder pagar os ingressos caros ou pela
distância, possa ir.
- Pode parecer demagogia, mas não é, porque
eu não sou político. Simplesmente vejo que o povo não pode ir ao
teatro, se ele não for bem barato e perto de sua casa. Para se
ter uma idéia, o ator Antônio Fagundes está cobrando 80 reais,
na sua peça As Mulheres da Minha Vida.
Não é que ele não mereça, mas o povo não tem mais como pagar -
explica.
- Quem sustenta o teatro no Brasil é a
"classe média" e ela já não pode gastar cerca de duzentos reais
em uma única noite só com o teatro, porque geralmente a pessoa
vai com a esposa ou esposo, namorada ou namorado, e ainda gasta
com estacionamento, um lanche. Não é que o preço não seja justo,
porque tem que se pagar o trabalho de várias pessoas para cada
peça. O problema é que o povo não tem dinheiro.
Ary, então, abre o jogo:
- É verdade que não estou ganhando dinheiro
com essa peça. Estou apenas 'trocando figurinha' com o povo,
porque com ingressos a dez reais, mesmo com o teatro cheio, não
dá. Muitos desses teatros nos quais estou apresentando a peça
são para poucos lugares. O Cacilda Becker, por exemplo, tem
duzentos lugares, e metade da platéia é composta de estudantes e
terceira idade. Então, enchemos o teatro e ganhamos mil reais,
sendo que temos despesas com funcionários e outros. Quer dizer,
ficamos empatados, não ganhamos e nem perdemos nada.
Ary diz que, mesmo sem ganhar dinheiro, vale
a pena continuar com os espetáculos a preços populares, porque
levar espetáculos para pessoas que não podem pagar oitenta
reais, nos teatros 'chiques' da cidade, era um desejo antigo
seu. E a reação das pessoas na platéia, que vibram, aplaudem, o
gratifica.
- Têm pessoas que vão falar comigo depois do
espetáculo, porque costumo ficar conversando com o público
enquanto autografo e vendo os CDs do show. Dia desses, por
exemplo, uma senhora de 45 anos de idade disse: "Foi a primeira
vez que eu pisei em um teatro. Que bom. Teatro é assim"? Eu
respondi: Não todos (risos). Têm alguns em que a senhora não vai
rir nem um pouco. Ela falou: "E vim por causa do preço. É o que
eu posso pagar". Ela me abraçou e chorou. E isso comove e
gratifica qualquer artista.
O humor é uma
necessidade minha, é o meu oxigênio
Os CDs dos shows de Ary são feitos de forma
independente e vendidos somente depois dos espetáculos. Brinca
alegando que faz isso porque as pessoas querem o seu autógrafo e
se mandasse distribuir os CDs nas lojas, o público não o teria.
- Parei de fazer CDs de música porque não
tenho o dinheiro que as grandes gravadoras dispõem para pagar às
rádios. Não posso pagar jabá.
Ary explica que o problema dos teatros da
prefeitura é que um show não pode ficar mais que um mês em
cartaz em cada casa, e esse tempo não dá para atingir toda a
população do bairro.
- Eu tenho um público na Mooca, na Lapa e em
outros bairros, que me dá condição de ficar em cartaz, três,
quatro meses se eu quiser. Se eu não conseguir atingir o público
específico, eu tenho que voltar lá no próximo ano. A Mooca, por
exemplo, tem dois milhões de habitantes. Como é que você vai
atingir, em um mês, dois milhões? Com ingressos a 10 reais, tem
público lá para ficar seis meses em cartaz, com casa cheia todos
os dias.
Difícil patrocínio
Ary conta que é muito difícil para ele
conseguir patrocínio da Lei Rouanet, porque não está dentro do
padrão para ser patrocinado e também pelo fato da fiscalização
aumentar sobre as empresas que participam, fazendo com que
muitas vezes, elas desistam.
- Para uma empresa patrocinar um grupo de
teatro ou um artista sozinho, este tem que ter 'a cara', o
estilo da empresa. Assim, quem iria querer me patrocinar? A
Jonhonson&Jonhonson? De forma alguma, porque critico os produtos
da empresa em meu show (risos). Então é muito difícil essa Lei
Rouanet.
- Além disso, a Lei Rouanet se torna inviável
também porque ela autoriza as empresas a patrocinar o artista.
Mas as empresas têm medo de fazer isso porque a fiscalização
fica redobrada depois. Os fiscais 'caem em cima', fazendo
triagens, aumentam a burocracia e cobram uma série de coisinhas.
Assim, muitos preferem ficar de fora. O aborrecimento, depois,
triplica com a burocracia, não vale a pena para eles.
Segundo Ary, um humorista crítico, que é o
seu caso, não consegue facilmente um patrocínio. E nem mesmo um
programa na televisão, que no momento está diretamente ligada ao
patrocínio, ao dinheiro, como afirma.
- Se eu chegar em qualquer rede de TV e
disser: "Quero fazer um programa aí. Eu tenho como patrocinador
a Firestone, a Coca-Cola e a Bombril". Todos vão dizer: "Oh! Ary
assina aqui agora". Mas qual dessas empresas ou outras desse
porte vão querer patrocinar um 'esculhambador' que nem eu, o
Juca Chaves, e outros? Ninguém .
Mesmo assim tem a intenção de fazer um
programa na televisão, mas avisa que do seu jeito. E o seu jeito
não é o da televisão, que segundo afirma, é de uma resposta
imediata.
- Eu tenho idéia de fazer um programa
realmente de humor, mas diferente de tudo que já se fez:
contando a história do humor, falando sobre o riso, e
ilustrando, com piadas, para o público. Didático, pedagógico
mesmo, mas isso não interessa às emissoras porque o resultado
tem que ser imediato.
Ary já fez alguns programas e especiais na
televisão, chegando a ficar por um ano na Rede Bandeirantes e
mais um na Record. Mas acabou, como diz, se apegando mesmo ao
teatro, que é o que mais gosta na vida:
Desde a infância
Ary Toledo nasceu em Martinópolis, uma cidade
que fica no interior de São Paulo, quase na divisa com o Mato
Grosso, mas foi criado em Ourinhos, SP. Foi para a capital ainda
bem jovem tentar a vida de ator, morou por cinco anos no Rio de
Janeiro, e voltou para São Paulo, onde reside há 35 anos.
Segundo conta, se hoje é um humorista
conhecido, o é pela grande necessidade que tem de extravasar
algo que está em si: o humor.
- Uma vez, eu bati em um menino menor que eu,
na saída da escola, porque ele xingou a minha mãe e ela não era
aquilo que ele falou (risos). Passou um senhor, me segurou e
falou: 'Não tem vergonha de bater em um menino menor do que
você'? Eu falei: 'O que o senhor queria, que eu esperasse ele
crescer'? O senhor riu. Então creio que eu já era humorista,
fazia humor e não tinha consciência de que era humor, por ser
criança - revela Ary.
Para ele o humor é algo fundamental para a
vida e, inclusive, o A todo Vapor está comemorando os seus
quarenta anos de humor.
- Hoje, consciente, percebo que o humor é uma
necessidade minha, é o meu oxigênio. Mas no show eu falo: 'Vou
continuar, até quando eu não sei, eu já estou com 68 anos e eu
posso viver, pela lógica, uns quarenta, cinqüenta mais no
máximo. (riso). O público ri muito.
Ary Toledo pretende levar o seu show para o
interior do estado do Rio, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco,
Ceará, e mais tarde também para o sul do país, sempre procurando
fazê-los nos teatros populares, de periferia, de lonas.
|
Pau-de-Arara
Vinicius de Moraes e Carlos Lyra
|
Eu um dia cansado
que tava
da fome que eu tinha
eu não tinha nada
que fome que eu tinha,
que seca danada no meu Ceará.
Eu peguei e juntei
um restinho de coisas que eu tinha:
duas calças velhas e uma violinha
e num pau-de-arara toquei para cá.
E de noite eu ficava
na praia
de Copacabana
zanzando na praia de Copacabana
dançando o chachado pras moças olhá.
Virgem Santa
que a fome era tanta
que nem voz eu tinha
Meu Deus quanta moça
que fome que eu tinha
mais fome que tinha no meu Ceará.
Puxa vida que num
tinha uma vida
pior do que a minha
que vida danada,
que fome que eu tinha
zanzando na praia pra lá e pra cá. |
Quando eu via toda
aquela gente
no come que come
eu juro que eu tinha saudades da fome
da fome que eu tinha no meu Ceará.
E ai eu pegava e
cantava
e dançava o xaxado
e só conseguia porque no xaxado
a gente só pode mesmo se arrastá.
Virgem Santa
que a fome era tanta
qu’inté parecia
que mesmo xaxado
meu corpo subia
igual se tivesse querido voar.
Vou-me embora pro meu
Ceará
porque lá tenho um nome
aqui não sou nada
sou só Zé com fome
sou só Pau-de-Arara
nem sei mais cantá.
Vou picar minha mula
vou antes que tudo rebente
porque estou achando
que o tempo está quente
pior do que antes não pode ficar. |
do site:
http://www.anovademocracia.com.br/30/25.htm